quarta-feira, 18 de março de 2009

ELA (dona) - BETO PETRY - Terceiro Lugar - Contos - PRÊMIO CATARATAS - 1993

ELA
(dona)
BETO PETRY
I

A um canto da rua, entre o perambular das pessoas bem no turbilhão da cidade grande. Foi lá que Zé Líbero da Pereqrinação sentiu-se horrivelmente mal pela primeira vez. Vertigens e uma ânsia. Retiravam-se de dentro de sua pessoazinha conformada e simplória os alívios, avolumando-se um trem de mal-estar nos seus eixos. Uma sensação circular de tonteira e o vazio amoleceram-lhe o queixo.
Amparado no pilar do prédio julgou-se perdido, já no inferno. Não sabia se gritava pela vida ou procurava fugir dela para livrar-se ligeiro. amava ainda um pouco as coisas desse mundo. Se amava! Mas seriam desse mundo as coisas que via no seu mundo? Não seria tudo uma grande fantasia, as pessoas à luz do dia e o resto? As construções ousadas de cada lado da rua? As palavras como símbolos para a comunicação, os códigos da mente?
Tudo simbólico, simbólica existência, eterna fantasia de tudo. Não seria assim pelo menos aparentemente?
O que poderia existir de real sem algum outro referencial por de¬trás? O que estaria na frente vibrante, decisivo como colunas de um edifício? Forte como um aço duplo. O quê? Nada à vista até o final do corredor do pensamento. Só o mistério daquele buraco lá no fundo.
Mas e aquela dor, aquele mal-estar insuportável? Ah, aquilo também devia de ser mais outra brincadeira do grande sistema de sinais, referências e simbologia na re1ação das coisas com um certo ambiente, coisas ou mercadorias que poderiam ser, por sua vez, frutos da mente que pra si mente.
Não quis mais pensilosofar. Algo chamara sua atenção, um rosto, alguma coisa estranhamente revigorante, um esboço quase perfeito e meio familiar. Beleza em superlativos derramada.
Todas as pessoas, como em todas as cidades pântanos bárbaros, passam pelas outras automáticas, sem percebê-las. A preocupação, antes, seria desviar, evitar o choque. Ninguém se percebe nem. Mas eles se perceberam...aqueles olhos encararam os de Libero num instantâneo e ele melhorou de súbito, esqueceu como que a dor enorme, a crise ou o que quer
que fosse.
Abandonou como que por total desencanto a coluna daquele prédio do velho cinema e por um instante moveu-se, como que conduzido, rumo a dona do olhar aquele e do lenço vermelho no cabelo. Fora tudo rápido. Tarde demais! Ela desaparecera tragada pela multidão boçal.
Era um sonho, algo assim inexplicável. A súbita melhora, a mu1her do lenço vermelho de aspecto familiar, porém bela e desconhecida, somente.
O vendedor de chinelos, chegado de uma pequena vila de um interior há poucos dias, voltou ao trabalho na sua banca instalada nas proximidades:
– Chinela du norti! Couro i corda. Couro i couro. Bagatela, ué, oxê! Bom memo da peste. Viggi! Produto barato e duradouro, ia falando e gesticulando pros q u e circulavam por ali, ainda pensando na aparição durante o mal-estar, ói a folga nu pé, sinhá, sinhô. Ó! Acabi cuo maistá du danadu du seu pé im casa ou na istrada. Frescô, aliviu pu mixaria. É dado!
Uns olhavam os chinelos de Zé Líbero, outros passavam indiferentes. O camelô pensava que até o troco ou a nota recebida pela mercadoria e os chinelos que vendia, tudo era fantasia. Um dia no colégio, na adolescência, um colega lhe dissera que tudo era i1usão, tudo era mentira. Agora ele desenvolvera o raciocínio da questão, sem falar a ninguém. Ele próprio era uma i1usão, segundo ele próprio.

II

No segundo dia, o mal atacou-lhe no ponto da lotação. Súbita cegueira, enjôo insuportável, vertigens, uma sensação de círculos e um tombo sobre o saco de chinelos quase vazio. Amparou-se nos cotovelos e os cotovelos no chão. Uma velhota e um rapaz de olhos ingênuos ajudaram-no a sentar-se:
– Está passando mal! Pobre homem! Quem tem amor pelos filhos que tem, ajude em nome de Deus. Aqui! Isto, meu rapaz. Eh, eh! Isto! Obrigado! Tem gente que em vez de ajudar é capaz de carregar-lhe o saco com as coisas, e ela de dedo dava quase.
Sentado no chão pela velhota e pelo mancebo estudante, Libro pôde erguer os olhos e lá estava ela, num dos ônibus, numa das janelas, sorrindo um riso de filme americano. Lá estava a dona a acenar-lhe, ainda com o 1enço vermelho nos cabelos negros 1ongos. O carro arrancou e ficou-lhe aquela mão diante dos olhos, aquele sorrir, o rosto bem feito no ar; o nariz.
Quem dera fosse possível correr-lhe ao enca1ço. Nenhum táxi ao redor.
Nada à vista em tempo. Entre ir e ficar deu de si. Estava acenando, entre os olhares de todos ali, para os lados que engoliram “zaspeglug” o coletivo amarelo em instantes, extraviando-o em mano¬bras entre os prédios.
A ca1ça toda empoeirada , apesar da cor 1aranjada , e o saco com os chine1os no meio das pernas. Ao lado a transeunte:
– Deus me ouviu! O senhor tinha desmaiado. Procure um médico, se puder, quem sabe resolva.
– Bença, mãezim! ele disse com aquela sinceridade das mãos juntas, então, pra velhota e levantou-se estabanando pó das pernas.
Pó pra cá; pó pra lá!
A anciã não quis nem saber da nota que Líbero ofereceu e nem deixou lá o mancebo estudante pensar no assunto em tempo.
– Guarde! pegando a cédula e enfiando de volta no bolso da camisa de Líbero, compre um remédio antes, meu filho, e lá se foi subindo num dos carros que encostavam sem parar.
Libro entrou em casa pensando na mu1her desconhecida recém-reconhecida entre tantos desconhecimentos.
Tudo já era mistério e ilusão, só que agora vinha mais.
Preparou a farofa do jantar, lavou o próprio prato, enfiou-se até pensativo na Camarade. Sonhou a noite toda com a bela de cabelos negros e lenço vermelho acenando.
Que espécie de fantasia seria aque1a? Entre sonhar e acordar, o que seria não estar sonhando? Acordou intrigado e tornou a dormir intrigado. Até que, sentindo a boca seca, levantou, bebeu alguns goles de torneiral e deixou a vida seguir pelos canos da existência.

III

O sol estava amarelíssimo no bairro, até que uma nuvem ficou de pé entre ele e Líbero. O céu estava azul ao redor das nuvens. As pessoas se aglomeravam no ponto. Não tardaria o carro.
Zé Líbero, sentindo-se tão simplesmente o Libro descalibrado nas poucas libras de si, entrou na 1otação entre recordações lá do seu interior, o sonho de ser alguém, conhecer um amor, alimentar-se em felicidades. Entre todas as fantasias boas e ruins da vida seria difícil um bocado tudo sempre.
Deixara a noiva Mariazim Lavadê Simpló da província Fim de Mun, porque ela o deixara primeiro, pelos tecidos em cores de outras fantasias, segundo matutara.
A do lenço vermelho era mais bonita, de qualquer forma. Ali sim, ah! Ela não estaria brincando com ele? Sempre ouvira palestras das velhas da sua terra de que as damas da cidade, metidas em granfos, gostam de zombar dos bichos do mato. Não, ela não! Ela era uma outra pessoa, boa e diferente visível já num primeiro avistar.
Sentou no número sete, sempre firme nos movimentos do corpo, olhando para baixo. Sentiu um perfume sereno agradável estranho, porém continuou sem reparar no passageiro do banco ao lado, ocupado que estava na tarefa de organizar e conferir a mercadoria do seu saco estampado com plebéias do sertão.
Logo, numa curva, depois da travessia do túnel, veio-lhe uma sensação circular violenta com formigamentos. Enjoou. Começou a passar mal pela terceira vez. Dor no peito e vertigens desta vez mais fortes. Faltou-lhe ar.
Abrindo a boca em espasmos tentou num esforço desesperado abrir a janela; apenas conseguiu esbarrar no passageiro ao lado. Este percebeu-lhe a intenção e a aflição, abriu sem nenhum esforço a janela, sorrindo. Era ela! Ela ela ela ela, a dona, e o sorriso dela! O lenço agora era preto, os cabelos os mesmos, negros. Que sensação vê-la de perto.'
Ela abriu-lhe os braços com uma expressão terna e compreensiva no rosto que parecia dizer sussurrando: "f i n a l m e n t e ". Ele endoideceu diante de tal expressão. Esqueceu a janela como se nunca tivesse precisado dela e atirou-se de encontro ao ser total que, no impacto daquele momento, lhe oferecia o que nuncantes tivera na vida: a magia, a luz, o encanto, alívio e segurança. Ela que o conduzisse agora para onde qui¬sesse.
E foram.
Depois ele poderia avaliar até a situação e as sensações. Só uma coisa não podia acontecer naquela hora: desgrudar dela, “nunca mais”!
Numa esquina qualquer desembarcaram, pois os passos, no frevo daquilo, estavam por si já no ritmo certo. Passearam de mãos dadas e almas.
Colheram algumas flores roxas e lilazes, também tulipas no passeio. A cidade não era mais a mesma. As pessoas agora abriam caminho... e ela sempre bondosa, máxima, sorrindo risos jamais explicáveis neste mundo carrancudo. Dançaram entre as sombras das árvores da praça.
O sol benzia-os e eles em pleno galope passaram então por cima de tudo. A totalidade do ser, a totalidade do existir. Ela e ele. Ah e como amaram! amaram e amaram-se sem palavras, numa sintonia completa. Jamais seria triste a existência daquele jeito, naquelas luminosidades.
Afagando-lhe os cabelos entre o compasso daquele ilimitado sentir, ele pressentiu aqueles lábios afrouxarem então o sorriso, rendendo-o por uma expressão que delata desejo, paixão, um cuidado profundo. Ela iria beijá-lo, a boca ressequida e sedenta dele e a dela úmida e viçosa se uniriam naquele momento. Líbero da Peregrinação sentiu então o corpo todo tremer e um arrepio percorreu-lhe, no antegozo, as colunas de todo o ser.
Ela vinha decisiva, sedutora, irresistível, completa, resoluta. Agora não haveria nem na imaginação mais quase a possibilidade de um possível recuo.
O medo instantâneo de Libro, instintivo, deu-lhe naquele último momento um distintivo de curiosidade a declarar. Perguntou assim então à irresistível dona do lenço:
– Dona, infiná quem vem a ser ocê memo?
E enroscou-se, encantado, como um menino desprotegido, naquele pescoço de miss; como que desculpando-se por importuná-la com tal ansiedade. Seria hora de querer saber algo? A indagação, assim naquela afobação, não ia estragar tudo? Mas, o Senhor piedoso dos Justos, milagreiro, não haveria de, por tão pouca coisa, retirar-lhe a graça concedida. Amparou-se em firme fé.
Ela apertou-o nos braços e suspendeu por uns instantes o impulso do beijo, em longo suspirar, encarando-o profundamente nos olhos castanhos com os olhos negros injetados de noite; e assim murmurou donamente num tom inigualável em ternura aquele eu sou a sua morte que encheu-lhe os ouvidos todos para sempre.


- F I M -

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