RECORDAÇÃO VIVA
Beto Petry
Eu aqui hoje, antes ainda de ficar mais velho ainda. Aqui sem nem eu e nem quase mais nada. Anormal, um tremendo animal diante de eu mesmo. Eu aqui, brutamontes onde me espelho vendo a silhueta do universo atra¬vés dos meus olhos.
Aqui eu, uma autenticidade já sistematizada e distorcida, e nem sequer compreendida ou discutida na comunidade com alguma chancezinha de não ser superada ou vencida, sem nem mesmo lutar. Eu aqui e nada mais além do grande sufoco ou alívio, nem sei mais o que é, de estar na para¬da.
Eu, um ser sem dúvida quase especial, pelo menos, senão por que a mesquinharia me notaria(do jeito que me notou)desde as fraldas? Sem nem me dar tempo de mamar direito na velha teta, não tão velha na época, da minha mãe?
Era uma vez o sossego da criança quando viram-me aquela vez no colo do meu pai, numa “festa de Deus":
- Ah que olhos azuis! Que bebê saudável!
- Que vontade de morder a bochecha dele, meu Deus!
E lá me morderam e me beijaram e logo me passaram um resfriado. Logo uma pneumonia preocupou bastante minha manhe mãe. Minhas irmãs cho¬ravam porque eu ia morrer. Tive pena, acho que, e não morri. Na segunda, aos quatro anos, também não morri, com pena acho da minha mãe manhe.
Eram umas injeções enormes para o meu bum-bum inocente de cheirosíssimos puns. A última seria mesmo desnecessária e eu esperneei; e lembro bem que não aceitei ir de carroça pra cidade. Depois me arrependi de ter saído correndo e feito aquela desobediência ao meu pai e às minhas irmãs, que deixaram de capinar para me levar.
Depois vieram as feridas nas pernas, nas costas, por todo o meu então corpo bonito. Seriam os mosquitos? Ah!, foi um tempo difícil. Só que eu não poderia morrer, porque aquilo não matava; só judiava. Ah, mãe manhe!
Cinco anos e já sem feridas. Que medo do coaxar dos sapos! Que medo da noite! Meu choro e meus gritos entravam no bosque na boca da noite daqueles dias chuvosos; e devem estar lá até hoje:
- Ai, não me abandone mãe manhe!
Pesadelos de criança e o sonho debatendo-se na manhã seguinte na realidade. Havia também delírios de febres e nem termômetro. Um dia, o cachorro, sendo espiado através da janela da cozinha, se transformou numa Lua igual à lua.
Era o "javali" vira-lata dentro do meu estado febril e seqüelas até hoje, creio, no meu cérebro.
A apendicite velo bem no tempo em que lá em casa eles chamavam “apênis”. Estourou em dois dias, entre vômitos e olhos assustados de todos. Doía, doía, e um curandeiro hoje morto graças a deus receitou..........................um negócio. Ah, lembrei! “Cristé” eles chamavam, mas era clister. Seria intestino, segundo o velhote. Ora, é o tanto que "apênis" precisa pra estourar.
Bum!
E o velhote:
- É o cristé.
E eu lá cagando, com meu pintotinho que nem um passarinho encolhido, que nem um pãozinho branco, sentado no pinico do quarto da minha irmã do meio e da mais novinha. Alguém, acho minha mãe, enfiava o “cristé” lá atrás de mim. Uma lavagem intestinal sem dúvida sentimental.
Bum!
E o velhote:
- Mais cristé.
E a minha morte espiando minha dor aguda por debaixo da fresta. Eu era um anjo e ia morrer no silêncio da minha inocência. Eu era bem gordinho, fofura, diziam; e ia morrer com meus olhinhos azuis e os meus medos de sapos à noite. Se iria para uma tumba o meu sonho de criança, que era ser alegre e livre; e correr com meus Irmãos (éramos em dez ao todo) no gramado das pastagens. Claro que sem as meninas. E aprender a masturbar como eles na barranca do riacho, pensando em alguma dona solteira ou mesmo casada, às vezes na professora, em turmas de sete, oito até.
Também caçar, mas eu tinha dó de passarinho.
Eu ia morrer bem quietinho, de dor que doía, e eu ia morrer na cama de acolchoado de penas da minha irmã. E ela chorando de pena, me beijando a testa e o rosto; e eu nem veria.
Ah! Eu continuarei!... Quando é verdade, sabe. Desculpe...
Alguém então disse antes de eu morrer:
- É preciso levar para a farmácia.
E lá o meu pai foi procurar um carro e eles com gelo na minha barriga. Era a farmácia do compadre da família. Um deles.
- Ai que frio!, gelo na minha barriga.
Triste, tristemente a tarde esfriava mais, mesmo sendo verão. O carro não vinha, não tinha. Era preciso ir pro hospital da cidade vizinha. Veio mais tarde uma carona, por acaso a caminhonete dos porcos pro frigorífico.
E eu ia morrer loguinho. Levaram-me antes e doía nos solavancos. Lá atrás a criação, até lembro:
- Róc-róc-róc...
E eu:
- Ai!
Minha camisa branca, bem limpa, curta, de volta-ao-mundo. Deitado na cama do hospital. Alguém dizendo na minha cara, insensível! Como recordo:
- Vai entrar pra faca.
O que seria? Ah, assustei meus olhos e minha mãe manhe, ah, coitada! Ela mentiu então até:
- Não é nada, o doutor vai te curar.
Ah ah ah! Se eu fosse ela eu morreria de chorar. O filho morrendo antes de ver ainda o mundo, com os olhinhos azuis inocentes, perguntando o que era a morte.
A faca.
O bisturi.
A cirurgia.
Ah, eu não sabia o que era a morte e ainda não sei.
Ah, apagaram-se as luzes durante a operação. Escureceu tudo. Mais ainda aquela injeção no meu braço.
- Mãe manhe!
Não tivessem aplicado e eu talvez ainda poderia ter ficado olhando umas horinhas para a cara enrugada um tanto e piedosa de manhe mãe. Ah, não tivessem aplicado, dizendo:
- Vai passar a dor, dorme dorme, anjo!
Ah, e minha mãe ficou ali olhando o meu rosto adormecido. É só se pôr no lugar.
Ah, e eu ainda vi ela passando a mão na minha cabeça de sonhos.
Ela, ela:
- Dorme meu anjo.
E eu ainda tentei me segurar nela:
- Manhe mãe!
O que seria a morte? Escureceu e eu lá, no escuro e manhe mãe no claro. No escuro da minha inocência .Na certa meus irmãos me esperavam em casa para brincar. Eu estava no escuro e eles me esperavam no sítio. Os sapos:
- Rum rum rum.
A casa talvez toda pensando em mim. Uma vela queimando a escuridão sobre a mesa da cozinha. Alguém animando a sombra na parede e mexendo a polenta sagrada de todo dia. Alguém lavando os pés na gamela com àgua morna cheia de esperança, decerto. Minha irmã bebê chorando embaixo da mesa ou num canto. Ah, e eu no escuro!
Uma vaca mugindo. Um porco-espinho assustando os cachorros. Uma coruja assistindo a noite lá do pé de pitangueira. Ah, o riacho lá embaixo riachandochando, gorgolejando o meu nome de dentro de si, sussurrando pra minha outra irmã que chorava na janela detrás, a maninha que eu amava demais, e sempre juntos nas brincadeiras...
Eu lá, um "pitoquinho" na mesa de cirurgia. Meu coraçãozinho aos trancos e barrancos, judiado:
- Tum, tum, toc ,toc , toc , tum, toc...
E podia até loguinho parar, que ameaçava, para desesperos dos meus queridos e das pessoas próximas.
E os meus bichinhos do sitio? Branco geral, sem nenhuma lágrima igual assim. O cardeal não cantaria mais para mim. O meu cão, o Violento, ficaria me esperando a vida inteira no quintal, perto do pé de primavera florido, onde sempre eu e ele contentes e distraídos próximos das borboletas.
- “Apênis” estourou ainda no sábado?!
Alguém lá se exclamando com manhe mãe e pai.
Era segunda-feira e ouvia-se, por certo, "padres nossos" e "ave-Marias” chorados por todos e em súplica por manhe mãe e pai mais. Lágrimas puras sobre o Salmo.
Tudo escuro mesmo, tão escuro que podia até transbordar uma reversão no estouro da lâmpada e ficar claro de repente. A luz do dia já também se fora embora, fugindo do temporal daquele início de noite.
Um pavor e providência. O médico me olhava de lanterna e operavam-me no desespero.
- Oxigênio, mais!
Alguém na certa comandava.
Estava escuro. Eu não sabia o que era a morte. Minha mãe chorava e eu não sabia o que era morte. Continua escuro e eu ainda não sei o que é a morte. Continuará escuro e eu nunca poderei nem saber mais o que é a morte.
FIM
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