UMA QUESTÃO DE GÊNIOS – Por BETO PETRY
Em verdade, eu recebera um convite do Ildonera (Dr. Ildo Carbonera da UNIOESTE, pela UFRGS), para escrever, discorrer sobre Machado de Assis, o maestro das palavras de todos os tempos. Sim, pois ele imortalizou-se, e vive além-túmulo. Ele ri de nós em suas páginas abertas da vida, e eu aqui tentando escrever sobre ele ainda hoje, e quantos ainda? Ora, o mundo todo ensaia por aí.
Desta maneira acato sugestões e estou somando tudo aqui para escrever. Quem mais poderá me dizer alguma coisa sobre o mulato das laranjeiras neste Sertão do Iguaçu? Serão os mestres das citações sobre citações das academias? Aqueles que copiam um trecho de alguém para justificar outro trecho de alguém que tinham copiado? Jocosa copiação! Ou seriam esses professores da academia, nos lábios-penas de Bakhtin, nada mais que sujeitos assujeitados? (acho que é com dois Ss sim, mas o PC Word diz que não).
Pensei, pois bem, também em contar como foi que descobri M. de Assis, assim, antes de alguém me falar qualquer coisa, por conta, nos meus 17 anos próprios, nos próprios livros... Meus professores, ah queridos, formados onde e em quê? (com exceção do Juvêncio, claro). Não, não poderiam saber me falar nada sobre Machado, não liam Machado na época,,, acho até que achavam que era machado de cortar lenha, mas que não cortava suas caras de pau de educadores sem leitura (de meia tigela); nem suas cabeças duras cheias só de morfemas e lexemas, em dogmas teóricos de (im)perfeita ortodoxia gramatical.
Não disseram nem mal, nem bem de M. de Assis, afinal, lá onde estavam e de onde tinham vindo... de tradicional militar educação de enxada e sem ainda nem a foice; e de literatura (sem tura alguma na cola) o que poderiam me dizer? Poderiam pelo menos ter pesquisado alguma “cousa” para me dizer na escola nas aulas “e não nas ulas” de português, como apontamentos que seguem:
Se analisarmos a sua carreira intelectual, verificaremos que foi admirado e apoiado desde cedo, e que aos cinqüenta anos era considerado o maior escritor do país, objeto de uma reverên¬cia e admiração gerais, que nenhum outro romancista ou poeta brasileiro conheceu em vida, antes e depois dele. Apenas Sílvio Romero emitiu uma nota dissonante, não compreendendo nem querendo compreender a sua obra, que escapava à orientação esquemática e maciçamente naturalista do seu espírito. Quan¬do se cogitou de fundar a Academia Brasileira de Letras, Ma¬chado de Assis foi escolhido para seu mentor e presidente, posto que ocupou até morrer. Já então era uma espécie de pa¬triarca das letras, antes dos sessenta anos. Patriarca (sejamos francos) no bom e no mau sentido. ¬Muito convencional, muito apegado aos formalismos, era capaz, sob este aspecto, de ser tão ridículo e mesmo tão mesquinho quanto qualquer presidente de Academia. (CANDIDO, Antonio, 1978. p. 16)
Tudo bem que Machado pudesse até ser ridículo como presidente de Academia (e quem não seria nestes cargos de mofas azedas?); mas nem isso me disseram lá nos Matagais do Iguaçu onde foi criado. Lá onde eu limpava chiqueirões e ia às aulas quase de pé no chão. Ora, roc roc eu lá entre os porcos-leitões, por cada lição curioso sempre; e nem me disseram... os tais, nem informaram-me que havia no Brasil um tal Machado que não era machado.
Estavam pagos para me ensinar, dólares talvez do FMI. mas aí me deixaram passando M.de Assis em brancas nuvens. O cara não tinha nascido para eles meu, nem sido presidente da Academia Nossa de Letras Mor; então eu achei um livro jogado lá, quase no lixo da escola, ou na casa de um parente, nem lembro onde; e que ninguém lia.
Comecei num zapt a ler por conta e gostar da prosa, abstrair, ‘sacar’, entende? Pelas sacadas e tocadas filosóficas, claro, parecia eu ali falando comigo, de repente, num outro. Aí houve uma identificação, para azar geral de todos os milagreiros, sacerdotes sem outros dotes, analfabetos regionais da imprensa marrom, religiosos e acéfalos do lugarejo. Foi então meu nascimento, meu batismo, meu puro ‘alfabatismo’ nas letras... Depois fui saber que Machado de Assis era o tal, etc. e senti-me orgulhoso demais, bah, que genial!
Bem, pensei algo assim, disse então ao Ildonera num e-mail, e incorporo tudo numa espécie de artigo agregado de idéias, da história real minha; e com as sugestões do meu jeito, entende? E falo sobre Dom Casmurro, que ninguém quase lê nem na escola e nem fora dela. Bem, esta obra depois fui saber que é um livro omisso bem a rigor, ao estilo machadiano, uma obra aberta, que nos engole em cheio: glug! Vamos lá! Era muito chocante ser da escola do Euclidão, ser mandado para fora da aula se tinha problemas de ler os eres por uma questão de descendência francesa, ou para casa em dias de frio se chegava lá sem uniforme; e o pior: ser da época contemporânea e nem saber nada de Machado, ou algo ao menos como as aí citações que seguem.
Esta circunstância parece chocante porque, nos seus contos e romances, sobretudo entre 1880 e 1900, nós encontramos, disfarçados por curiosos traços arcaisantes, alguns dos temas que seriam característicos da ficção do século XX. O fato de sua obra encontrar atualmente certo êxito no Exterior parece mos¬trar a capacidade de sobreviver, isto é, de se adaptar ao espírito do tempo, significando alguma coisa para as gerações que leram Proust e Kafka, Faulkner e Camus, Joyce e Borges. Entran¬do pela conjetura, podemos imaginar o que teria acontecido se ela tivesse sido conhecida fora do Brasil num momento em que os mais famosos praticantes do romance, no universo das literaturas latinas, eram homens como Anatole France e Paul Bourget, Antonio Fogazzaro e Émile Zola, que, salvo o último,;. envelheceram irremediavelmente e nada mais significam para o nosso tempo. (CANDIDO, Antonio, 1978. p. 17).
Bem caro Ildonera, digo então, Machado de Assis era enfim ‘o cara’, imortal, grande mais que qualquer Alexandre... desde o seu tempo até agora; e nada me diziam dele, assim tive que ir descobrir. Mas fui; outros jamais.
Quem é Machado para mim hoje? Ora, ele é aquilo que é ‘indivíduo’ se fosse uma personagem; mas é real. Sujeito sim e bem sujeitado, autêntico escritor-pensador-leitor-pessoa; é vida em alta escala de radiação e percepção.
O gênio da literatura na verdade é um ser dotado de sensibilidade, mordacidade, um cérebro preparado e de pronto eficaz em prontidão para sempre ver mais de si mesmo, e daí o seu ver, através de si, dos outros. Os teóricos que o digam hoje.
Mas onde estavam meus professores do 2º Grau da época? Em que escolas tinham estudado, deveriam chorar até hoje, e para sempre, se um dia soubessem, mas eles jamais saberão (pois não é pra qualquer um mesmo) o que ignoraram, fizeram ignorar e perderam de todo em suas vidas insípidas e rasas de cultura sem vanguarda e nem Jovem Guarda e seus ‘Blue Caps’.
Que educação havia em minha cidadezinha oestina do Paraná? Cada vez que pesquiso mais, desespero-me mais. Ninguém me falou de MACHADO DE ASSIS na escola. Erro irremediável! Ildonera, eu grito aqui que nem você, eu fico cada dia mais indignado! Este artigo nos 100 anos de Machado, o bugre, o nosso mulato de ouro, é sim a minha vingança aos pseudos educadores da deseducação do faz-de-conta de ensinar que tive, e de tantos outros, gente do nosso admirável devoto cristão beato povo em sua ‘vida de gado’ pelo Brasil afora.
Salas cheias e todo mundo para a escola! Cursos de língua podres e sem linguagem, sem nenhuma definição de literatura, nem de linguagem, sim, baixíssima linhagem de aprendizado real, algo ‘irreal’. Escolas públicas de pedagogia contraditória (falam de conhecimento real, processo amplo de ensino objetivo e integrado permanente socializador para a nata aprendiz; e vem quase só com pegadinhas nos vestibas: pedabobos por toda parte!) ensino privado da indústria do ensino para a privada; desde antes e pior ainda nos anos ‘generais’ do nosso Brasil imenso país de romântico e metafórico hino, mas que jamais saiu das palavras... ou dos versos de Dias, Gonçalves; ou ensaiou sair nos anos ‘Vargas’?
Sabe cara, e agora eu falo com o sempre vivo Machado de Assis, o que me deixa louco é um aluno formado em letras que nunca leu um livro seu de cabo a rabo! Na minha sala tinha só quatro que ousaram. A obra de um homem revela a sua cultura; quem ele é, o que foi; qual o seu país, quem devem ser seus pais, em quem ele vota, quais as músicas que gosta. Assim é só olhar o que toca no rádio, ou o que a TV mostra no horário nobre. Ah, Machado, que triste, isto sim que é pecado!
Está claro, pois, que o homem pouco interessa e a obra interessa muito. Sob o rapaz alegre e mais tarde burguês comedido que procurava ajustar-se às manifestações exteriores, que passou convencionalmente pela vida, respeitando para ser respeitado, funcionava um escritor poderoso e atormentado, que recobria os seus livros com a cutícula do respeito humano e das boas maneiras para poder, debaixo dela, investigar, experimentar, descobrir o mundo da alma, rir da sociedade, expor algumas das componentes mais esquisitas da personalidade. Na razão inversa da sua prosa elegante e discreta, do seu tom humorístico e ao mesmo tempo acadêmico, avultam para o leitor atento as mais desmedidas surpresas. A sua atualidade vem do encanto quase intemporal do seu estilo e desse universo oculto que sugere os abismos prezados pela literatura do século XX. E a este propósito é interessante dar um repasso nas diferentes etapas da sua glória no Brasil, para avaliar as suas muitas faces e o ritmo em que foram descobertas. (CANDIDO, Antonio, 1978. p. 18).
Vá que lá vá! “Rir da sociedade”, acho que foi isso. Os meus professores tiveram medo de sentirem-se ridículos demais! Cândido nos descreve agora aqui como a sua atualidade e perspicácia é poderosa. Que era o homem? Ah, mas nas escolas em que estudei o homem era o dono da verdade, o diretor tinha, decerto, para uso e abuso, a verdade absoluta que Machado rebatia com os seus negaceios. Por isso talvez tiveram medo de apresentá-lo a mim.
O importante, no entanto, é que eu fui de encontro à vida, ousado que fui e sou, e assim o encontrei. Deixe-me Machado de Assis, neste seu Centenário, beijar a sua testa e curvar-me à sua frente beijando a capa de Quincas Borba, e ao ‘vencedor as batatas’, assim sou vencedor porque lhe conheci!
Aqueles contos tiravam-me da casa lá do sítio, tiravam-me do meu quarto, da minha cidade... eu com Machado viajava louco até os abismos do fundo de minha alma de piá-rapaz. Antes foi com Ressurreição, depois a Mão e a Luva, e aquela garota que nascera para mim e tirara as luvas para lavar as mãos; depois, ah aqueles contos diabólicos, de tremer e fazer tremer, como O Alienista, A Cartomante, O Enfermeiro, e todos até hoje vivos em mim, e viva!!!! Adeus professores cruéis da minha terra, dei meu passo à frente!
Depois veio Dom Casmurro, e até hoje sempre, que paranóia, quase desisto de meu casamento por causa de Machado de Assis. Depois a minha esposa, antes bela virgem, foi a Capitu da minha própria história. Ironias do destino ou uma questão de gênios? A Carolina dera também motivos ao nosso mulato mestre das palavras?
No caso de Capitu, penso que ele foi quem antes traiu, ou anteviu a traição e suas possibilidades. Nesta parte Machado apenas, ou muito, entendeu e foi um entendedor da natureza. A possibilidade de superação do protocolo patriarcal, a libertação em Capitu numa traição perfeita; mas ‘crimes perfeitos não deixam suspeitos’, como canta Engenheiros do Hawai.
E se ela traiu mesmo, e deve ter dado sim; por que não achar lindo isso, em vez de querer punir? De fazer suspense? Ora, a mulher tira as vendas imposta-lhe pelo machismo, e as calcinhas baixando as anáguas, e abre os olhos em Capitu: a vida corre e está aí. Bentinho pode querer matar-se, pode sofrer comparando-se com Otelo, pode jurar Capitu de morte, mas não é a voz dele; é a sociedade patriarcal engolindo os seus protocolos e a sua opressão à mulher de 1900. Mulher que era submetida à sociedade das tradições medievais.
Está a questão até mais para Nietzche do que para os filósofos do mundo das idéias puras... ou para professores e pedabobos retrógrados. Vai sim além, e aqui está o gosto de poder ler Machado de Assis.
Podemos dizer que Ele, o nosso imortal autor, poderia ter desenvolvido outra arte ou coisa, em seu potencial perscrutador da vida e das coisas da vida; mas quem lhe deu espaço à alma, pela habilidade de escrever, foi a literatura, e soube em sua época perceber que com ela se tornaria imortal.
Por quê? Ora, porque escreveu, e teve seus motivos para ir ao papel: ele quis ser, ousou, e tornou-se assim imortal. Com certeza pela importância que deu a vida, apesar de seu senso crítico e mordacidade para com a sociedade, e pelas traições, M. De Assis era apegado e amava a vida acima de tudo, para desejar em sã consciência a imortalidade alcançada. Isso nega um pouco o pessimismo quanto à existência que lhe é atribuído muitas vezes, em muitas passagens de seus livros poderosos.
Bem, meu caro Ildonera, eu digo aqui... estive em curso e lendo um pouco, também pensando no M.de Assis e trabalhando seus textos de D. Casmurro em sala de aula. Assim descubro cada vez mais que ele é inesgotável... saber lá quanto? Nos livros dele a gente nem percebe que não havia computador, nem automóvel, nem TV, é assim de uma introspecção tal e atualidade, que o atualiza, que parece que o mulatinho irônico está vivo e escrevendo hoje. Não fosse o contexto histórico e M. de Assis seria contemporâneo. Mas logo eu provarei que ele vive e é ainda maior.
Pois, então abaixo o contexto histórico. Outro dia, indo para a casa de minha amante, tive assim a sensação de ser fuzilado pelo seu marido no quarto dela, ao tirar as cuecas e ir com ela em seus lençóis. Claro, foi apenas uma paranóia de A Cartomante, pois a Terezinha da Tenda de Umbanda tinha me dito, e medito, naquele dia, que estava tudo bem no amor comigo.
Vejo, revejo, releio e coloco o ensaio para esquentar nas brasas-palavras da minha pena e penas. Afinal, não é sempre que temos a satisfação de poder contribuir com uma revista que publica ensaios sobre não os cem anos da morte; mas OS CEM ANOS DE VIDA eterna de Machado de Assis.
Se ele é para mim mais importante que Jesus Cristo, posso fazer um negaceio, se sou cristão, torturado ou não (como Dostoievski, por Bertrand Russel); mas posso agora, para comemorar os seus 100 anos conjeturar: Jesus para ser famoso teve que ressuscitar após a morte (e eis que é bem difícil de se provar esta questão, sendo gênio ou não); no entanto Machado de Assis, sem comparações, claro, ele, embora passem anos, décadas e século, não morreu e... parece que perece jamais! (mesmo sendo crucificado por tantos milhões de cidadãos comuns e também por tantos protagonistas da nossa história e da nossa (des)educação). Enfim, digo com o coração e com a razão: – Com o mulatinho amado do Rio e Suas Palavras, que + valem que a Palavra, a crítica brasileira literária pode dispensar a ressurreição. Palavra!
Bibliografia:
CANDIDO, Antonio, 1978 (Vários Escritos) Livraria Duas Cidades, SP/SP, 1978.
BETO PETRY
Beto Petry – Escritor, Poeta, Compositor, Agente Educacional do PDE do Paraná, Professor de Língua Portuguesa da SEED, NRE de Foz do Iguaçu, Ensino Médio no Colégio Estadual Euclides da Cunha – Matelândia/ Paraná. Vencedor de vários prêmios de Literatura, entre eles o Prêmio Cataratas de Foz do Iguaçu e a Viagem Nestlé Pela Literatura em 2001, pela Fundação Cultural Nestlé de SP/SP.
Em 08 de junho de 2008.
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Aqui você pode ver a vida, sua vida, saber de vidas... e viver mais em menos tempo; através da literatura e textos de ficção que só falam a vardade. Literatura é isso. Bem-vindo. Abraços de BETO PETRY
ResponderExcluirSe eu disse vardade, tudo bem, mas é verdade; ou antes é a revelação da vida, do que é humano e possui arte, através da palavra.
ResponderExcluirBETO PETRY